O quartel general de Daniel Piza é um minúsculo aquário no 6º andar da Av Engº Caetano Álvares, nº 55, onde fica a redação do Estadão. Cercado de livros, jornais e papéis, o enfant terrible
do jornal escreve sobre tudo, o tempo todo, sempre com contundência. A
placa na porta diz "Editor executivo" mas, na prática, hoje ele quase
não edita mais, só escreve. Depois de posar para as fotos na redação,
Daniel arruma um espaço entre a montanha de papel que habita sua sala e
convida o repórter para sentar.
A conversa começa amena, com um breve resgate histórico. Editor de
cultura aos 25 anos, colunista aos 26, editor executivo aos 29. Em
suma, um garoto prodígio. "O (Ricardo) Gandour, diretor de conteúdo do
Grupo Estado, tem 45 anos. O Otávio Frias Filho, da Folha,
apesar de herdeiro, começou com 30. A tendência é que cada vez mais
jovens cheguem a postos de comando. Durante muito tempo trabalhei aqui
com o Sandro Vaia (ex -diretor de redação). Ele me usava como o
provocador, o advogado do diabo", conta.
Daniel Piza começou no Estadão em 1991, quando ainda era estudante de direito do Lago São Francisco. Algum tempo depois foi para a Folha de S.Paulo e, na seqüência, para a Gazeta Mercantil.
"No final de 1999, a Gazeta entrou em uma baita crise. Cheguei a ficar
dois meses sem receber salário. Coloquei dinheiro do meu bolso para
pagar colaborador e fotografia. Fui embora por causa disso".
Não ficou muito tempo desempregado. Voltou para o Estadão a
convite de Pimenta Neves, que sempre foi um entusiasta da sua carreira.
Pouco tempo depois, Pimenta assassinaria Sandra Gomide. E o Estadão
nunca mais seria o mesmo. "Não me sinto satisfeito em fazer um
associação direta entre o caso do Pimenta e a profissionalização que
esta empresa vem vivendo, especialmente de 2004 para cá.
No final de 2001, ainda havia a presença de muitos "Mesquitas" na
redação. Depois, os anos de 2002 e 2003 foram muito ruins para a
maioria dos jornais. Foi nessa época que houve a reestruturação do
Grupo Estado, que teve que fazer ajustes para sair do vermelho. Com a
situação administrativa e financeira reestruturada, a família se
afastou para que houvesse a profissionalização do comando. Em 2004,
decidiu-se fazer a reforma gráfica, da qual eu fui um participante
ativo.
Hoje, a direção do jornal é mais profissional. A chegada do Gandour
foi muito boa porque ele é encarnação dessa idéia de que o jornal tem
um comando autônomo em relação á família. Abaixo dele está a rádio
(Eldorado), agência, portal e o jornal". Mas ainda é um jornal
conservador? "Está menos conservador. De qualquer forma, a missão do Estado é ser mais sóbrio e tradicional do que a Folha.
O país se beneficia quando tem um jornal mais moderno e inquieto e
outro mais sóbrio. A página 3, dos editoriais, ainda é controlada
diretamente pelo dr Ruy Mesquita. A linha histórica e o DNA do jornal
não mudaram".
Mudamos o rumo da prosa e partimos, enfim, para o prato principal. A
crítica. Começamos pelas revistas de cultura. "Eu gosto da Piauí porque
é uma revista que preza pela qualidade do texto. Mas discordo de
algumas coisas. Achava que fosse ser mais bonita. Piauí não me convida
muito a leitura. Prefiro revistas mais brancas. Há um excesso de
reportagens sobre personagens folclóricos e questões exóticas e um
pouco de medo de falar dos grandes temas. Perdeu-se, ainda, uma grande
oportunidade de abrir um espaço à crítica cultural. Na NewYorker, por
exemplo, você encontra a grande reportagem, perfil, serviço, poemas,
contos e, no final, uma seção de críticas e ensaios de alto nível. As
revistas culturas brasileiras, em geral, estão todas muito ruins. A Entrelivros, que era uma revista interessante, está por acabar. Não pega. A Cult é complicada. Hora é muito séria, hora perde a mão. A Bravo,
que já foi ambiciosa e qualificada, foi piorando com o passar do tempo.
Existe sempre a pressão por vender muito. E muita gente acha que vender
muito é vender 50, 60 mil exemplares. Só que no Brasil, onde os livros
vendem 2, 3 mil cópias, se uma revista vender 20 mil exemplares está
bom".
Futebol, literatura, poesia, teatro e jornalismo, muito jornalismo.
A conversa foi longa e saborosa, como os textos do entrevistado.
Quando? Em janeiro. Onde? Na revista IMPRENSA. Fonte: Portal Imprensa.
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